quinta-feira, 28 de junho de 2007

(Homenagem à Bahia e aos que lutam por ela)
Ode Ao Dous de Julho
Era no Dous de Julho. A pugna imensa
Travara-se nos cerros da Bahia...
O anjo da morte pálido cosia
Uma vasta mortalha em Pirajá.
"Neste lençol tão largo, tão extenso,
"Como um pedaço roto do infinito ...
O mundo perguntava erguendo um grito:
"Qual dos gigantes morto rolará?!
...Debruçados do céu. . . a noite e os astros
Seguiam da peleja o incerto fado...
Era tocha — o fuzil avermelhado!
Era o Circo de Roma — o vasto chão!
Por palmas — o troar da artilharia!
Por feras — os canhões negros rugiam!
Por atletas — dous povos se batiam!
Enorme anfiteatro — era a amplidão!
Não! Não eram dous povos os que abalavam
Naquele instante o solo ensangüentado...
Era o porvir — em frente do passado,
A liberdade — em frente à escravidão.
Era a luta das águias — e do abutre,
A revolta do pulso — contra os ferros,
O pugilato da razão — com os erros,
O duelo da treva — e do clarão!
...No entanto a luta recrescia indômita
As bandeiras - como águias eriçadas
—"Se abismavam com as asas desdobradas
Na selva escura da fumaça atroz...
Tonto de espanto, cego de metralha
O arcanjo do triunfo vacilava...
E a glória desgrenhada acalentava
O cadáver sangrento dos heróis!
............................................................................................................
Mas quando a branca estrela matutina
Surgiu do espaço e as brisas forasteiras
No verde leque das gentis palmeiras
Foram cantar os hinos do arrebol,
Lá do campo deserto da batalha
Uma voz se elevou clara e divina.
Eras tu — liberdade peregrina!
Esposa do porvir — noiva do Sol!...
Eras tu que, com os dedos ensopados
No sangue dos avós mortos na guerra,
Livre sagravas a Colúmbia terra,
Sagravas livre a nova geração!
Tu que erguias, subida na pirâmide
Formada pelos mortos de Cabrito,
Um pedaço de gládio — no infinito...
Um trapo de bandeira — n'amplidão!. ..
Castro Alves(S. Paulo, junho de 1868)

3 comentários:

Anônimo disse...

Meu Papagaio Louro. Só você mesmo homenageando a nossa liberdade nas palavras únicas do nosso Castro Alves. Parabéns e beijos.
Noélia

Teka disse...

Alskade Téllo

Lendo estes escritos que você, meu especial amigo, com tanto carinho nos oferece, não pude deixar de me lembrar de todos os momentos que já passámos juntos nestes 11 anos de preciosa amizade.

Foi contigo que conheci Castro Alves e de uma forma tão especial...
Retirei do baú das minhas memórias uns escritos meus sobre a primeira vez que pisei a minha “Casa Amarela” e a primeira vez que ouvi o poeta. É a você que eu dedico e aqui transcrevo o meu sentir.

“Nove horas da noite!
Estendida no meio daquele jardim de sonho, rodeada por perfumes exóticos que misturam flores e verdes, a lua a brilhar no céu, solta, livre, eu sinto-me bem.
Estar do outro lado do meu mundo, naquele “sitio”, inspirador, cuidado com amor, por mãos amigas, delicadas e cuidadosas, é como estar num paraíso ou num sonho fabricado para afugentar as banalidades dos dias que passam iguais uns aos outros.
Aqui sinto-me protegida, aqui posso sonhar e ser eu.
Estranho!
Num lugar tão distante daquele onde nasci, num lugar que piso pela primeira vez na minha vida… sinto-me em casa, como se sempre aqui tivesse morado, como se apenas tivesse voltado!
Com o pensamento a mil, continuo deitada, deixando-me levar por uma moleza deliciosa.

Subitamente para perpetuar a magia, surge do meio das cores, perfumes e sons nocturnos, uma voz clara, expressiva e calma vinda de dentro da Casa Amarela, entoando “cantos” maravilhosos de Castro Alves, traduzindo um amor sofrido, sensual e eterno. Palavras novas para mim mas que me inundam, fazem-me sentir um carinho imenso e molhar os olhos de felicidade por poder participar nelas.
Sinto-me a viver num conto fantástico. Aquela casa, naquele lugar, o som de palavras belas, profundas que me levam longe… muito longe…”

Téllo você é muito especial... Obrigada por ser meu amigo.
sua

mlanat disse...

Querida Té, não podia receber um comment mais bonito. Lindo, cheio de sensibilidade e também de saudades. Que bom que você é minha amiga.
Beijos, Téllo.