sábado, 7 de julho de 2007

BALÕES E DESILUSÕES

"Junto aos Armazéns do Grandella havia um homem a vender balões, e, fosse por tê-lo eu pedido (do que duvido muito, porque só quem espera que se lhe dê é que se arrisca a pedir), fosse porque minha mãe tivesse querido, excepcionalmente, fazer-me um carinho público, um daqueles balões passou à minha mão. Não me lembro se ele era verde ou vermelho, amarelo ou azul, ou branco simplesmente. O que depois se passou iria apagar para sempre da minha memória a cor que deveria ter-me ficado pegada aos olhos para sempre, uma vez que aquele era nada mais nada menos que o meu primeiro balão em todos os seis ou sete anos que levava de vida. Íamos nós no Rossio, já de regresso a casa, eu impante como se conduzisse pelos ares, atado a um cordel, o mundo inteiro, quado, de repente, ouvi que alguém se ria nas minhas costas. Olhei e vi. O balão esvasiara-se, tinha vindo a arrastá-lo pelo chão sem me dar conta, era uma coisa suja, enrugada, informe, e dois homens que vinham atrás riam-se e apontavam-me com o dedo, a mim, naquela ocasião o mais ridículo dos espécimes humanos. Nem sequer chorei. Deixei cair o cordel, agarrei-me ao braço da minha mãe como se fosse uma tábua de salvação e continuei a andar. Aquela coisa suja, enrugada e informe era realmente o mundo."

José Saramago in As Pequenas Memórias

2 comentários:

mlanat disse...

De rara sensibilidade. Perfeito!!!

Teka disse...

Muito tocante esta pequena história do nosso Saramago. Fáz-nos pensar que o pior do mundo pode estar nas pessoas. Mas o mundo é assim mesmo, não se compadece com as pequenas alegrias que podemos ter, ele castiga, ele faz troça, dos nossos pequenos azares.
Não sei se fico mais triste com os dois homens que riram do balão esvaziado, ou da mãe distraída que não percebeu este drama importante do seu pequeno filho. Quantas vezes os nossos pequenos sucessos e alegrias são desvalorizados por quem está mais perto de nós? Tornando-nos frágeis, inseguros e mal preparados para enfrentar as rasteiras que o mundo nos prega.

Alskade Téllo que bom que você nos dá a oportunidade para reflectir e poder partilhar estas nossas reflexões.

Dê-nos sempre mais motes para podermos exercer esta faculdade maravilhosa do ser humano, a de poder pensar sobre as coisas.