terça-feira, 13 de novembro de 2007


Saudades de um neto.

Sou o neto mais velho de Vêlveda Castro Lima Lanat, Vódinha para todos os seus netos. No dia 12 de novembro fui visitá-la, levar algumas flôres e conversar um pouquinho com ela. Contei-lhe da saudade que sinto e também rememoramos algumas passagens da nossas vidas.
Lembramos da história de quando ela foi alfabetizada por uma professôra sisuda (como não poderia deixar de ser) que viúva usava um laçarote lilás no pescoço. Da sua merendeira que cheirava a manteiga e das horas intermináveis e aborrecidas que passava na escola.
Lembramos também da sua narrativa sôbre a última vez em que viu sua avó, com um vestido comprido que arrastava a bainha no chão e do chapéu com uma pena. Ela estava na janela e gritou: vovó! A vovó se virou e ela viu um semblante que só as avós têm. Era o ano de 1908, Vódinha tinha 5 anos.
De seu pai ela contava as peripécias, como uma vez em 1910 quando Salvador foi bombardeada, ele levou um tiro na Rua Chile. Morreu muitos anos depois, jovem, aos 48 anos.
Depois conversamos sobre tempos mais modernos conversa que tínhamos nos "almoços íntimos", que nada mais eram que o almôço servido em seu quarto quando ela não queria ir para a sala almoçar. Aí falávamos de plantações de alfaces, flôres e de um sem número de outros assuntos que me levariam a escrever dias a fio. Falava de política apaixonadamente mas sempre reservando um triste fim a estes parlapatas.
Contava-me também quando seu pai a imunizou contra a varíola e que em 1918 estava no dentista e viu passar os caixões de dezenas de vítimas da Gripe Espanhola. Eu escutava com a máxima atenção àqueles relatos de história viva. Me contou ela que uma vez descendo a Ladeira de São Bento assistiu a um discurso de Rui Barbosa que estava num carro conversível! Que mulher de sorte.
É isto, poderia passar horas e horas a descrever esta mulher à frente do seu tempo que tive a sorte de ter como avó. Mas vamos deixá-la descansando sob todas as cores que há nas flôres.
Um beijo Vódinha, seu neto Marcelinho.

4 comentários:

Anônimo disse...

Lindo, lindo, Masrcelinho! Tenho certeza de Vodinha adorou a "conversa" que teve com ela no último dia 12. Com certeza ela sente a mesma falta que você sente dela. Muitos beijos da
Helena

Anônimo disse...

oi Marcelinho, muito comovente seu relato sobre mamãe, talvez eu não saiba tanto qto vc sobre sua infancia,mas o importante é a recordação q vc guarda dela com tanto carinho, ela participou ativamente da criação de tres netos: Você, Maria Tereza e Ciça deixando em todos o exemplo de sua força.
Obrigado pelo seu carinho

Teka disse...

Tive a sorte de ter conhecido Vódinha, uma figura e tanto que visitei de todas as vezes que pisei a Bahia. Onze vezes. Foram visitas memoráveis, onde fui muito bem tratada e presenteada com as melhores iguarias bahianas executadas com carinho pela própria Vódinha. Algumas vezes levei de Portugal uns saquinhos de alfazema para perfumar as gavetas que Vódinha adorava e me agradecia dando de volta alguma iguaria de sabor incomparável. Foi estranho agora da última vez, não visitar mais Vódinha, não ser recebida pelo sorriso de Albertino e não me sentar na varanda de frente para o jardim bem cuidado. Mas felizmente existem as nossas memórias, onde os que gostamos habitam e onde podem ser visitados. Téllo adorei esta sua recordação e senti saudades da minha avó Ofélia que gostaria também te ter apresentado. Beijinhos e saudades.

Marcelo disse...

Minha Té querida, eu.... chorei.